
Entrei no ônibus.
Feliz estava, tudo dando certo. Poltrona 25, janela, lado esquerdo do corredor, a mesma da ida. Vinte e cinco é um numero bonito; ¼ de 100. Longe do banheiro. Gosto da matemática. Sentei-me, ninguém do lado, porem, ao lado direito do corredor, poltrona 23 e 24 (acho), estava uma moça com duas crianças: uma menina de uns 4 anos e um menino de colo. Sorri para ele, a moça sorriu para mim.
Que sorriso fantástico!!! Ela deveria ter uns 21 anos no máximo, e já dois filhos. Que sorriso fantástico!!! Não pude evitar, sorri também, ela continuou sorrindo. Me apaixonei, disfarcei. Me acomodei, coloquei os fones para descontrair, mas as vezes olhava, ela olhava também e sorria, eu sorria.
Ela era doce, sorriso doce, um jeito meigo, um jeito alegre de levar a vida. Com duas crianças no colo e um sorriso constante no rosto! E assim foi a viagem: silencio, troca de olhares, sorrisos pra lá, sorrisos pra cá. Paixão.
Três horas depois de puro êxtase por aquele sorriso, eu deveria tomar alguma atitude: um gesto, uma conversa, uma poesia. Já sei!! Um bilhete! Claro! Ela saberia o que eu estava sentindo, nunca mais a veria de novo, mas ela saberia que seu sorriso era hipnotizante!
Peguei meu bloco de notas e escrevi ”Que coisa boa virar pro lado e ver-te sorrindo! Um sorriso gostoso e verdadeiro que me envolveu!! Valeu a Viagem. G.”
Eu a entregaria na saída, quando estivesse indo embora, talvez ela se emocionasse, talvez se apaixonasse, talvez corre-se atrás de mim, talvez não soubesse ler, talvez rasgasse, talvez escondesse, talvez chorasse, talvez um deboche.
O ônibus estava chegando, e a troca de sorrisos continuava. Já estava ensaiado: eu levantaria, entregaria o bilhete, daria tchau e pronto!
O ônibus chegou, respirei fundo! Levantei devagar, pensei, pensei, pensei de mais, odeio pensar. Olhei pra ela, sorri e disse: “Tchau”.
O bilhete nunca foi entregue e por enquanto nunca será.
A vida é assim, um sorrido fascinante, uma paixão de ônibus, um bilhete não entregue, o medo de ser feliz.
Boaviagem. Gugagumma